A falta de Mulheres no eSports é problema social ‘diz estudo’

Pesquisador brasileiro comprova que diferenças biológicas de gênero não influenciam no desempenho.

Encontrar jogadoras na cena profissional de eSports é ainda muito raro. Até hoje, é perpetuada uma ideia errônea de que as mulheres possuem uma habilidade inferior aos homens em relação a videogames em geral, um equívoco que serviu como desculpa por muito tempo para responder a grande pergunta: porque a presença de mulheres no esporte eletrônico é tão pequena?

Pensando exatamente nessa questão, o Consultor em Psicologia Rafael Pereira junto à Maria Lucia Wilwert e Helena Viana Fraga começaram uma pesquisa científica, orientado por Mestres da Universidade Federal de Santa Catarina para desmistificar esse preconceito. Nomeado como “GG – Girl Gamers: The perception of League of Legends professional teams about women participation in Brazilian competitive gaming”, o artigo do pesquisador trata diretamente da participação de mulheres na cena competitiva brasileira.

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Rafael Pereira

“É perceptível que essa questão de falta de mulheres no cenário competitivo não é só no Brasil, e sim em todas as regiões. Pensando nisso, e para uma reverberação maior, enviamos o resumo do artigo para uma conferência na Coreia, que sabemos ser um berço do eSport. Foi aceito que o artigo fosse apresentado lá e publicado internacionalmente, podendo levar essa discussão para todas as regiões”, disse Rafael.

Inovação vs Conservadorismo

Os resultados da pesquisa de Pereira mostram, como o esperado, um cenário ainda conservador no país – algo que reflete a semelhança em outros locais do mundo. Pesquisas como “Videoplay pathways for females: developing theory”, de Meredith Suzanne Hahn Aquila, e “Gendered identities and play”, de Elisabeth Hayes, mostram como a distância do sexo feminino no cenário de videogames em geral é somente resultado de fatores sociológicos – e não biológicos, como muitos acreditam.

Basicamente, a formação que a sociedade atual traz para as crianças acaba criando maior espaço aos meninos para jogar do que às meninas – como por exemplo o fato de que muitas famílias ainda perpetuam a concepção incorreta de que games são destinados somente ao sexo masculino. Ainda há a diferença de criação em relação às atividades domésticas: segundo uma pesquisa realizada pela ONG Plan Brasil, enquanto 84,1% das meninas precisam realizar tarefas como “arrumar a casa”, apenas 11,6% dos meninos possuíam esse tipo de obrigação.

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Vittória Dutra Teixeira Pirró, jogadora da CNB e-Sports

Mesmo com esses contratempos, o público feminino na área de jogos eletrônicos é muito grande, representando quase a metade de jogadores em todo o Brasil. Numa pesquisa realizada este ano em conjunto pela Game Brasil e Sioux, as mulheres somam 47,1% dos gamers brasileiros. Ainda assim, existe muita hostilidade nesse ambiente – como o exemplo de Vittória, a única menina a ser selecionada pela peneira da organização CNB e-Sports e que recebeu diversas críticas machistas pela conquista.

Preconceito no cenário profissional

O estudo de Pereira ajuda a entender ações como os ataques à Vittória, já que sua metodologia foi baseada nos depoimentos e respostas de jogadores e administradores em geral de seis times participantes do Campeonato Brasileiro de League of Legends. O Consultor em Psicologia constatou que o preconceito está enraizado no cenário profissional, portanto obviamente essa intolerância é transferida para a comunidade e os fãs – assim como é visto, por exemplo, em esportes tradicionais.

As inúmeras situações de homofobia ou racismo no futebol são uma clara evidência desse fenômeno. Casos como o do jogador Grafite, insultado de “macaco” pelo jogador argentino Desábato em plena Copa Libertadores 2005 de um jogo entre São Paulo e Quilmes acabam se tornando exemplo para a torcida. O caso repercutiu pelo país de forma muito intensa, mas nada impediu de que outros momentos semelhantes acontecessem entre jogadores e posteriormente com a torcida envolvida – como aconteceu em 2014 com Aranha e a torcida gremista que desrespeitou o jogador, chamando-o também de “macaco”.

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CBLoL 2015 / Alianz Parque

Algumas frases coletadas ao longo da pesquisa de Rafael Pereira demonstram bem esse preconceito. Os entrevistados possuíam opiniões positivas em relação à participação das mulheres nos eSports e concordavam com as dificuldades e falta de oportunidades oferecidas. Embora eles tivessem essa percepção, os participantes também utilizaram argumentos preconceituosos para explicar a ausência do sexo feminino no cenário competitivo, tais quais:

“Mulheres não levam tão a sério quanto homens.” (Jogador 20)

“Acho que mulheres não passam tanto tempo envolvidas com jogos eletrônicos e não treinam tanto quanto os homens.” (Jogador 21)

“[…] a maioria das mulheres não possuem interesse nesse cenário.” (Jogador 13)

“Porque pra estar no cenário competitivo de League of Legends você precisa se esforçar o máximo e estar disposto a abrir mão de tudo, 95% das mulheres (ou mais) não se esforçam o que deveriam.” (Jogador 11)

“[…] pouquíssimas delas se dedicam sério no LoL, por isso não se destacam…” (Jogador 14)

“Porque elas não querem, quem quer faz, quem não quer arranja uma desculpa.” (Jogador 16)

“Porque poucas realmente querem se dedicar 100% ao game e se mudar para uma Game House e viver do LoL.” (Jogador 18)

“[…] existem poucas mulheres que se dedicam a melhorar no jogo e tem a intenção de entrar no competitivo de LoL.” (Jogador 19)

“Porque a maioria delas está interessada em outros assuntos.” (Administrador 2)

Nessa pesquisa, apenas uma mulher estava incluída entre outros 26 homens de organizações e times.

RESULTADOS

Se até uma jogadora que se provou competente o bastante para participar desse meio competitivo precisa enfrentar esse tipo de comportamento, outras mulheres que ainda estão começando nos eSports acabam sendo afastadas do cenário por dificuldades e têm portas fechadas; justamente a realidade demonstrada pelos resultados do estudo de Pereira. É um problema social que atinge diretamente as jogadoras e o Consultor em Psicologia consegue desmistificar os argumentos baseados nas diferenças biológicas de gêneros com o estudo.

Inicialmente, a pesquisa possuía ajuda de custo da Universidade, mas agora todos os gastos necessários estão sendo arcados por Pereira. “Com os cortes de verbas da universidade, também foram cortadas todas as viagens internacionais para apresentações de trabalho. Isso inclui esse artigo, que já foi aceito e convidado a ser apresentado em janeiro na conferência em Seul, na Coreia do Sul”, explica o Consultor, que também trabalha na organização CNB e-Sports Club auxiliando cyberatletas.

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Carta oficial de convite à Pereira e sua pesquisa

Rafael continua no ramo e abriu uma campanha no site Kickante para conseguir a quantia necessária para seguir com esse e outros estudos relacionados a eSports.

 

 

fonte: uol